Entre o partir e o ficar existe uma linha muito ténue que se chama medo.
Esta sensação atua sobre nós como um véu invisível que, muitas vezes, é uma barreira limitativa para o passo em frente. Como disse Mark Twain, “Daqui a vinte anos, ficará mais desapontado com as coisas que não fez do que com as que fez. Então, deite fora as amarras. Navegue para longe do seu porto seguro. Agarre os ventos alísios com as suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”

Neste X-Perience, rodamos juntos até à Mongólia com os nossos NEXX Riders Anabela e Jorge Valente (DiariesOf): um casal de aventureiros que decidiu dar o primeiro passo e furar a barreira do medo, deixando para trás o que já haviam ganho – para somar o que ainda têm a conhecer e a ganhar – para percorrer o MUNDO, sem olhar para trás.

Visitar um país pela primeira vez é sempre uma aventura, uma oportunidade para perceber se as ideias pré concebidas sobre aquele local estão certas ou erradas, será verdadeiro o que lemos, pesquisamos e analisamos antes de chegar ao nosso destino?

“Para nós, a Mongólia é a pátria do vasto império conquistado por Genghis Khan, um reino que finalmente desabou para os seus vizinhos titãs, China e Rússia. Ao aproximarmo-nos, as nossas mentes enchem-se de bravos cavaleiros, terríveis guerreiros e tribos nómadas nas vastas e cénicas estepes.”

Deixam a fronteira russa para trás e não veem de imediato a da Mongólia. Ocasionalmente, há uma terra de ninguém entre dois países vizinhos, especialmente nas fronteiras mais remotas. Seguem caminho até que, depois de alguns quilómetros começam a questionar-se, se não estarão completamente perdidos.

“Um pequeno prédio que avistamos deu-nos força para continuar. Certamente encontraríamos alguém que nos ajudasse a perceber a nossa localização. Infelizmente quando chegámos, não existia nem uma alma. Na verdade, era um armazém abandonado. Não conseguimos deixar de achar piada porque o braço da barreira estava ali parado, sozinho na natureza, como uma das portas de Magritte, facilmente contornável. Uma existência sem sentido. Quando nos preparávamos para contornar a fronteira perdida, um homem com o rosto mais estupefacto que já vimos, saltou da casa, obviamente não esperava visitas e lentamente se recompôs. Balbuciou a palavra ‘passaportes’, ainda incrédulo com o facto de alguém passar ali, no meio do nada; muito rapidamente nos devolveu os documentos e fez sinal para prosseguirmos.”

Com apenas 30 dias para explorar o 18º maior país do mundo, Jorge e Anabela estavam divididos entre, correr para ver o máximo possível ou seguir marcha lenta para absorver mais daquele país. A viagem acabou por ser uma combinação de ambos. Abandonaram a ideia de visitar as tribos mais remotas como os pastores de renas, os Tsaatan mas mesmo assim não se apressaram e reservaram um tempo para acampar perto das Gers onde encontraram nómadas e puderam conhecer mais sobre o seu estilo de vida, cultura e crenças.

“Os nossos primeiros 20 km na Mongólia, da fronteira em direção a Olgii, deram-nos uma excelente ideia do que esperar dos caminhos deste país. Haveria muito off-road e estradas de terra que tendem a ficar muito escorregadias com a chuva mas, tivemos sorte, a Mongólia fez jus à sua reputação de ser a terra do céu azul e as estradas permaneceram secas durante toda a nossa viagem!”

Ao chegar a Olgii, avistam uma outra moto estrangeira, uma Honda Transalp. Pertencia a um casal do norte de Espanha que também planeava encontrar uma rota que os levasse para Ulaanbaatar. Travariam conhecimento, experiências e simpatia, percorrendo assim parte da jornada juntos.

A viagem cai muito rapidamente numa rotina simples: andar de moto, comer e montar acampamentos selvagens sem quaisquer visitas obrigatórias, completamente livres de obrigações; até hábitos como pentear o cabelo, usar roupas limpas ou tomar banho são embalados e esquecidos no fundo das suas malas, tudo isto, trocado por locais deslumbrantes, fogueiras quentes ao anoitecer, contemplando as estrelas, na companhia dos novos amigos.

“Sentimo-nos livres. Sentimo-nos como nómadas na estrada com um único propósito de viajar o leste para chegar a Ulaanbaatar antes que o nosso visto de 30 dias expirasse. Além disso, éramos livres para fazermos o que quiséssemos. Só nos restou aproveitar o passeio, a paisagem, alimentarmo-nos e encontrar um lugar seguro para montar o acampamento e pernoitar. Poderá a Vida ser mais simples e significativa que isto?”

A vida não poderia ser mais simples mas ela estava lá para lembrar os nossos Riders que certamente poderia ficar mais complicada. Esses obstáculos surgiam na forma de uma travessia de um rio, pela água ou até mesmo na paisagem que se abria em todas as direções. Esta é a beleza da Mongólia e algo que apreciam bastante, um mundo sem fim e extensões ilimitadas de pastagens mongóis. Esta paisagem vem geralmente com desafios adicionais, especialmente no caminho de Altai a Uliastai onde a estrada de terra se multiplica em vários trilhos sem se saber qual deles seguir.

“O mapa mostrou-nos a existência de uma única estrada. De onde vieram todas estas outras? Qual delas é a estrada no mapa? Após uma meticulosa análise do mapa e prolongada discussão entre nós os quatro, tomamos a decisão com um jogo de pedra-papel-tesoura! Então, finalmente seguimos em frente, calculamos que todos os caminhos, provavelmente nos levariam ao mesmo lugar. Não foi bem assim, por vezes tínhamos que seguir caminho pelos campos para voltar à estrada e não seguir pela direção errada. Foi aqui também que encontramos pela primeira vez areia na Mongólia, foi um grande desafio, não pelo tereno em si mas sim pelo peso total das motos, o nosso peso e todo o equipamento – tivemos que conduzir com cuidado redobrado para evitar bancos de areia mais profundos.”

Ponto positivo, não dividirem a estrada com camiões e motoristas impacientes mas sim com cabras e cavalos, ora uma rodagem mais lenta, ora uma corrida a par com uma manada de cavalos, mais uma vez, a liberdade do sentir a natureza no seu estado mais puro. Durante todo o percurso, a povoação é quase inexistente, por isso, aproveitam sempre para se aproximar das gers que aparecem ao longo da paisagem. Nunca encontram assentamentos de iurtas, apenas duas ou três juntas e geralmente pertencentes à mesma família. Acampam perto deles ou são mesmo convidados a ficar com a família. Vistas de fora, as iurtas parecem frágeis tendas em forma de cúpula mas a sua estrutura é realmente robusta.

“Entrar numa iurta é como entrar no mundo mágico da toca do coelho da Alice. São como grandes apartamentos que acomodam todos os móveis de uma família numa única divisão. Confortável e aconchegante. O toque final é dado pelos tapetes coloridos que revestem o piso, paredes e teto. Ficamos mesmo muito surpresos porque algumas famílias tinham eletricidade gerada por painéis solares e baterias e mesmo TV com antenas parabólicas.”

Ficar numa iurta ou acampar ao lado de uma delas é a oportunidade para Jorge e Anabela Valente testemunharem o estilo de vida nómada em primeira mão, em que todos participam, incluindo as crianças. O trabalho é feito por todos os membros da família, cada um sabe das suas tarefas e o que há a cumprir a cada dia que passa, desde o simples ordenhar ao facto de manterem o terreno verde para que os animais possam pastar. As crianças brincam, todos respiram o mesmo ar puro da estepe e todos partilham o mesmo objetivo: VIVER!

“Depois de arrumar o acampamento e deixar as crianças sentar nas nossas motos por um belo momento era hora de seguir caminho, as crianças correram atrás de nós até se cansarem e pudemos seguir a planície à nossa frente, pelo menos até os nossos estômagos pedirem alimento. Perto das aldeias havia mercearias que vendiam a mítica massa instantânea que cozinhávamos no nosso fogão a gás. Evitávamos sempre barriga cheia porque existem muitos caminhos de difícil travessia.”

“Não criar expectativas” anda de mãos dadas com a descoberta de grandes revelações. Em Kharkhorin, o inesperado acontece, o nosso aventureiro casal descobre um hotel muito bom e alguns albergues. Local onde se situa também o Mosteiro Erdene Zuu, o mais importante centro religioso da Mongólia, património da UNESCO e museu, o seu nome significa ‘cem tesouros’, número que se refere aos cem Stupas que formam as paredes externas do local sagrado.

“Aqui, neste local religioso foi também onde nos despedimos dos nossos amigos Oscar e Cristina que tiveram menos tempo de sobra do que nós e tiveram que seguir em frente enquanto nós tínhamos planeado mais alguns desvios. Lágrimas nos olhos; o abraço apertado e o bem-estar de ter conhecido e experimentado o prazer de novos amigos para a vida, o desejo de boa sorte e a vontade do reencontro a qualquer hora em qualquer lugar do mundo.”

Seguem viagem até às festividades de Naadam, um festival tradicional que acontece em toda a Mongólia em Julho. Uma pausa estratégica para descansarem e mais uma vez, aproveitar o que de bom há na vida e naquele país.

Quando as festividades terminam, seguem um desvio para o deserto de Gobi sem pensar duas vezes, são dois SIM. Dois apaixonados pelo deserto não iriam deixar escapar esta oportunidade, mesmo sabendo das dificuldades em andar de moto na areia e das poucas condições para abastecimento e calor. Poderiam ter optado por um veículo de tração de 4 rodas mas não seria a mesma coisa.

“Saímos de Ulaanbaatar em direção a Dalanzadgad, com sentimentos contraditórios. Pelo que nos foi dito, a boa notícia era que provavelmente não morreríamos de sede no deserto. No entanto, a má notícia era que havia uma grande chance de nunca chegarmos lá. Se a areia for demais para as habilidades do Jorge de conduzir na areia (e os nervos aguentarem), talvez tenhamos que fazer o retorno antes das dunas. A área que queríamos alcançar chamava-se Khongoryn Els e é notável pelas suas enormes dunas de areia.”

Ao chegarem a Dalanzadgad, a maior cidade antes do deserto, não deixam de reparar em todos os 4×4 e antigos Buhankas Russos (o equivalente off-road russo das carrinhas VW), todos totalmente equipados e prontos para a aventura de Gobi. É aqui também que se encontra a última estação de serviço para abastecer antes do deserto e por azar, está fechada. Mas graças aos seus novos amigos mongóis, conseguem fazer com que alguém abra o posto, abastecem e seguem caminho.

“Tínhamos tudo o que precisávamos. A partir daqui, deixamos a estrada de asfalto para trás. Os próximos 180 quilómetros eram só cascalho e areia. Como bónus, também experimentamos uma forte tempestade que se transformou numa tempestade de areia. Quando a tempestade nos atingiu, olhamos ao redor e chegamos à terrível constatação de que estávamos no ponto mais alto do deserto, então paramos e sentamo-nos no chão, longe da moto, e esperamos que as nuvens se afastassem.”

As dificuldades do deserto aparecem por ordem sequencial. Têm que conduzir com muito cuidado devido aos bancos de areia. Uma queda ou outro acidente pode ser fatal. O sol, geralmente um aliado, torna-se um dos principais desafios, o terreno árido e o calor não ajudam e Anabela sente-se fraca, sendo que a única sombra que existe é a sombra da moto que também emite bastante calor em torno dela.

“Esperávamos encontrar algumas gers, mais perto das dunas, onde pudéssemos descansar e obter alguma sombra. Por isso seguimos em frente, parando de vez em quando. Ficamos aliviados quando avistamos algumas iurtas no horizonte, para pernoitar. As dunas espetaculares já estavam à vista. Poderíamos ir até elas, depois de uma boa noite de sono. Mas assim que chegamos ao acampamento de ger, Anabela começou a vomitar. Devemos ter subestimado o clima. Esses podem ser os sintomas de uma insolação. Os habitantes do acampamento perceberam sua condição frágil e trataram-nos como convidados especiais, o que incluiu preparar uma sopa de arroz para acalmar o seu estômago e não nos deixar dormir na nossa tenda. Em vez disso, eles ofereceram uma de suas iurtas mais confortáveis.”

Revigorados depois de uma boa noite de sono e um farto café da manhã, seguem caminho até às dunas que já estão mesmo ali ao lado, no entanto, a parte final do deserto para subir as mesmas teria que ser feito a pé, um desafio que não é para todos…Param na quarta duna onde já estão a uma boa altura para vislumbrar toda a beleza que os rodeia.

“Depois de alguns minutos ali, admirando a paisagem de ondas congeladas de areia, deixamos de ouvir os nossos corações a bater. O nosso coração finalmente descansou e os nossos olhos também, com esta paisagem monocromática e minimalista, que se repetia até onde os nossos olhos alcançavam. Quando o coração e os olhos descansam, o mesmo acontece com a alma. O silêncio instala-se, sentimos o nosso corpo e a meditação acontece organicamente. Foi isso que nos atraiu para o deserto? Este silêncio que cura? Esse estado de consciência graciosa que facilmente torna tão claro o que é importante e o que é supérfluo? Silêncio, escuridão, reclusão, grandes extensões, amplos espaços abertos. Todos nós carregamos um eremita dentro de nós? Alguém que anseia por silêncio e reclusão? Ou estamos apenas cansados ​​do barulho enlouquecedor de nossa civilização acelerada?”

Mongólia, que país! Embora adorassem ter ficado mais tempo, o visto dos nossos NEXX Riders iria expirar em 2 dias, pelo que, tiveram que seguir viagem em direção à República da Buriácia, na Rússia. Esta seria a segunda vez do casal na Rússia mas numa região completamente diferente e com 10 dias que lhes foram concedidos para transitar 4000km até Vladivostok…


TESTEMUNHO / FOTOGRAFIA / VIDEO
‘DIARIES OF’ by JORGE & ANABELA VALENTE
https://www.diariesofmagazine.com/